Sempre tive vontade de escrever sobre a vida de minha vó, talvez agora seja o melhor momento. Para isso peço ajuda de todos os leitores que já tiveram um contato direto ou indireto com minha vó. Fiquem a vontade para opinar, acrescentar ou arrumar alguma coisa escrita aqui. Assim com a ajuda de vocês vou conseguir eternizar as memórias de uma pessoa que admiro muito.
Uma pessoa que serviu não só a sua família como também a sua comunidade. Uma pessoa que não calou nem parou no tempo, ela brigou, lutou, superou todas as suas próprias forças e expectativas e conseguiu sozinha educar todos os seus 7 filhos.
Minha vó conheceu seu marido e se casou quando tinha 16 anos, ele um Italiano e ela Pernambucana descendente de índios e negros. Dessa misturinha nasceram os 7 filhos, eles viviam muito bem lá em Boa Viagem Recife PE.
Até que meu avô recebeu um convite para trabalhar no Rio de Janeiro, e ele que já estava desgostoso de uma sociedade, resolveu largar tudo e partir para uma aventura, levando sua esposa e seus filhos.
No caminho o ônibus quebrou e foi ele quem arrumou, assim ele recebeu uma nova proposta, ir para São Paulo. Corajoso como sempre, ele foi.
Chegando aqui, já com emprego certo, alugou uma casa, comprou um terreno, em menos de um ano ele fez um barracão no terreno para moradia até que a casa fosse construída, mas, nesse meio tempo descobriu que tinha um câncer, e com um ano aqui em São Paulo, faleceu.
Dai começa uma nova etapa na vida de minha vó.
Ela pediu ajuda para a família, mas a resposta não lhe agradou, pois não queria separar seus filhos e foram essas as suas palavras “onde comer um comem sete, mas ficar separados nunca".
Ela, que nunca tinha trabalhado na vida, em Pernambuco tinha de tudo até empregadas domestica, teve que arregaça as mangas e procurar emprego com sua filha mais velha de doze anos. Minha mãe que era a terceira filha mais velha ficou em casa para cuidar dos irmãos e da casa, ela tinha nove anos. Minha vó pôde contar muito com seus vizinhos Sr. Álvaro e sua esposa.
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Voltando um pouco para a morte de meu vô.....
Ele estava muito ruim no hospital, sofrendo, mas não morria, dai uma enfermeira que era freira chamou minha vó e disse que ele já devia ter morrido, mas só não morreu ainda porque não queria deixar minha vó e seus filhos. Dai então minha vó começou a trabalhar com ele, falar que ele podia descansar em paz, que aqui eles ficariam bem. Meu vô pediu um caderno, e escreveu para a minha vó e uma pagina para cada filho. Pena que minha vó enviou o caderno para a irmã dele ver, porque este nunca mais voltou, lamentável.
Mas ai depois de escrever o que queria, ele entregou o caderno para minha vó, e ela falou para ele descansar em paz, e só pediu para que ele de onde estivesse olhasse por ela, e ele disse que nunca iria abandoná-la, e morreu deixando sua esposa viúva com sete filhos o mais velho com doze anos e o mais novo um ano.
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Continuando...
Minha vó e minha tia conseguiram trabalhar juntas em uma fabrica de tapetes, um certo dia ao voltar do trabalho, foi à primeira vez que minha vó realmente clamou por meu vô, o trem em que elas estavam não agüentou subir e foi perdendo forças até começar a voltar e vinha outro trem logo atrás, eles iam se colidir, ou até mesmo antes da colisão o trem poderia descarrilar. As pessoas entraram em pânico, começaram as gritarias, correrias e alguns até se jogaram pelas janelas, minha vó, que é uma pessoa ilumida e cheia de fé, abraçou a minha tia, se ajoelhou rezou e pediu: - “Nazareno, você falou que eu deveria pedir por você quando precisasse, pois hoje, hoje eu preciso de você, nos ajude, faça esse trem parar porque senão eu não sei o que será dos nossos filhos que dependem de mim”.
E ai então o trem foi parando, parando, parando e finalmente parou, o que vinha atrás também conseguiu parar.
À noite deste mesmo dia, minha vó sonhou com meu vô se banhando em um lago e sorrindo para ela.
E assim foi, minha vó sempre trabalhando para sustentar seus filhos, depois de um tempo, minha Tia já em outro serviço tinha uma amiga que era espírita, e essa amiga, disse ter recebido um recado de meu vô, ele pedia para a minha vó ir até a empresa onde ele trabalhou antes de falecer.
Minha vó, como uma boa católica, não crendo em espiritismo, foi devido à insistência de minha tia.
Ao chegar lá, assim que entrou no escritório o Dono veio de encontro com ela já dizendo, que foi Deus que a enviou, pois a empresa estava indo a falência, e a escritura do imóvel estava lá com eles, e se a minha vó não tivesse aparecido ela teria perdido a casa, pois a escritura entraria no inventario da empresa. Minha vó retirou a escritura, e mais uma vez sonhou com meu vô em uma praça sorrindo para ela.
Minha vó era muito rígida, minha mãe conta que uma vez ela interferiu na conversa dela com uma vizinha, daí a minha vó deu-lhe uma bofetada que ela caiu e cortou o supercílio na calçada, levou três pontos e ainda uma bronca daquelas.... rsss.
Meu tio, um dos gêmeos, perdeu uma perna em um acidente de ônibus, minha vó não deixou ninguém ter dó dele, e exigiu que ele fosse trabalhar, certo dia ele chegou em casa com algumas laranjas, minha vó pegou ele as laranjas e foi na quitanda perguntar se ele tinha realmente ganho, após a confirmação do dono, minha vó devolveu as laranjas e disse que ele não precisava de esmolas e sim de um emprego, e ela só ia aceitar alguma coisa em casa se fosse comprado com o dinheiro de seu trabalho. Para muitos pode parecer ignorância, mas para meu tio foi a maior lição da vida dele, pois ele se tornou um pai de família admirável, trabalhador e honesto.
Eu lembro de uma vez, um dos meus tios, já casado, voltou pra casa de mala nas mãos porque tinha brigado com a esposa, minha vó não o deixou entrar em casa, fez ele voltar para a sua casa para ficar com sua esposa onde era seu lugar, já que tinha casado com ela. Ele obedeceu e estão muitos bem casados.
Sempre quando os seus filhos brigavam e falavam de separação, já ia ela conversar com o casal, dava maior lição de moral e todos sempre respeitaram.
Depois que os filhos cresceram e começaram a trabalhar, minha vó ficou em casa, mas sempre trabalhou tecendo tapetes vendeu avon, tapawer, yakult, nunca foi de ficar parada.
Além de seus filhos, ela criou também uma sobrinha, qual a considera como mãe e ela como filha. Foi criada sem nenhuma diferença alguma, como filha de verdade. Dessa sobrinha ela cuidou até o dia de seu casamento, e por ironia do destino, é essa sobrinha que esta cuidando dela nessa reta final. A consideração é tanta, que agente até esquece que ela é sobrinha, é como se fossem oito filhos.
Minha vó nunca aceitou cuidar dos filhos de seus filhos, ela sempre falou que “quem fez cuida” mas ela cuidou da minha prima, filha da filha mais velha, que ficou viuva e foi morar com minha vó. Cuidou, que a minha prima também a considera como mãe.
Nos anos 70, minha vó se uniu com algumas pessoas da comunidade e foi brigar por um posto de saúde no bairro. Foram muitas passeatas, reuniões e encontros. Ela ficou muito conhecida na época, não tinha medo de falar, nem de brigar, até mesmo com as autoridades. E ela juntos com os demais colegas, conseguiu fundar um posto de saúde no Jardim Nordeste, vejam uma matéria neste link http://www.movimentosaude.org/paginas.php?id=1 eu me lembro como se fosse hoje, no dia da inauguração, ela subiu no palanque e falou da luta, de como eles tinham conquistado aquele bem feito para a população do bairro. Eu lembro também do grito de guerra que se tornou tão popular, era assim: “O povo unido jamais será vencido”.
É muito gostoso lembrar dessa época, da uma saudade... são tantas lembranças...
Por isso peço para todos que lêem, e em algum momento tem uma lembrança, deixe registrado, ela merece ser eternizada hoje e sempre....
Continua....

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